quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O teu nome me é próprio


Se não for para doer, para quê? Para quê amar? Para quê gostar de você se passar a não doer? Se apenas eu passar a amar? Se eu gosto desse desgosto de continuar a te querer mesmo com o passar. do tempo.  E já faz tanto. tempo. Que eu gosto de sofrer, que eu gosto de amar. Há mar. Há muito mar nesse amor que não passa nem pondo o coração na brasa, sangrando. Sangrando, eu sei gostar, sei amar, sei amarrar as ideias, e sei fazer da escrita- resgate. Te amando, eu deixo a pieguice toda para o dia a dia e a única parte que fica é o meu olho em busca do teu olho preto que se desloca agilmente nesse imenso branco que sobra na sua face. Puro labirinto. Perdição. Foi tentando te olhar nos olhos que o Saramango inventou a cegueira leitosa. Foi tentando te olhar nos olhos que os poetas – e os profetas – se inspiraram em desgraças. Teu olho é o olho do furação – minha desgraça, meu desafeto, a eterna solidão. Eu te amo, idiota. Com a incerta certeza que eu preferia não sentir nada. Para quê? Para não sofrer? Para vegetar. Para plantar begônias e ver como elas amam suas congêneres, para me contentar com a punheta diária, com os amores alheios babacas, com os babacas que não entendem esse jogo que é te amar. Um jogo onde eu sempre me fodo no final. O jogo que consiste em te olhar à espera. De que você olhe dentro do meu olho-misericórdia meu olho-cachorro-abandonado meu olho-sem-graça-sem-cor-sem perdição. Meu olho-babaca que sempre te olha e espera a derrota que é o teu olho me olhar.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

                                                                                                                            e ele não voltaria nunca. Enrolou um baseado nos dedos e prometeu em silêncio, nunca mais amar. Ele enrolou um baseado nos dedos calmamente, desesperançado. Ele enrolou um baseado nos dedos e se preocupou apenas em desamar. Assim, como quem cultiva um verbo. Assim, como quem apenas cultiva, ele foi desamando. Primeiro as cartas, depois as músicas, as roupas e os últimos arranhões na pele. Ele desamou qualquer lembrança, qualquer fato, qualquer cubículo onde se amaram. E dolorosamente acendeu o baseado e foi prometendo nuncamaisnuncamaisnuncamaisnuncamaisamor. Prometeu durante o tempo em que o fogo se estendia pela seda e queimava a erva e soltava a fumaça, ele foi prometendo enquanto expirava a fumaça. Ele foi prometendo e se perdeu nas promessas. E aos poucos foi comprometendo o futuro, as outras pessoas, comprometeu o sexo, o desejo, comprometeu o amor. Palavra riscada no amontoado de dor. O amor, palavra idiota em que acreditou. Palavra insana. E desejou que o amor fosse apenas uma palavra em aberto. Puro significante infértil. Esperou que assim como o amor foi, o amor cedesse, e se esgotasse. Assim como todo baseado que é tratado, aprisionado entre os dedos e acaba se transformando em cinzas. Esperou que o amor terminasse: pura cinza inútil.                                                                                                                   e o amor findou.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sem ar...

porque eu assisti um espetáculo
de teatro com nome de aula de química
e eu ainda não digeri nada.
Minha avó era asmática e eu me lembro de tê-la visto durante suas crises tentando incessantemente conter o ar dentro do peito. Minha vó tinha crises respiratórias terríveis, e sempre ficava internada, enfiavam agulhas dentro da sua pele e ela cuspia um caldo grosso e verde do qual eu tinha um nojo e imaginava as consequências terríveis de enfiar a mão dentro do recipiente onde ela colocava momentaneamente seus excrementos. Minha avó era uma mulher que viveu pouco, mas deixou marcas profundas naqueles que com ela conviveram. Mas minha avó não dançava. Pelo menos eu nunca a vi dançar. Ela sempre foi aquela mulher que trazia em si toda a imagem de liderança, respeito, e passava horas sentada numa cadeira de balanço - similar a um trono onde sentam as rainhas europeias. Eu sempre dancei. Desde criança pulava, ou estava no meio das rodas de dança. E durante minha pouca existência já dancei axé em festa infantil, macumba em espetáculo teatral, rock na areia da praia, tango improvisado em salas vazias, já pulei feito pipoca atrás do trio.  E quase todo o final de semana quero sair para algum lugar e dançar, dançar, dançar, dançar, dançar, feito a menina da música da Marisa Monte. Mas eu nunca dancei bem. Na verdade eu nunca dancei  satisfatoriamente.  E a dança eu não sei se era uma ânsia, ou apenas o desespero do peito. A verdade que além do sangue dentro da gente, a minha vó e eu tínhamos o mesmo desespero pelo ar que nos falta. Não, não herdei as crises respiratórias, mas herdei todas as outras crises. De sonho impossíveis, ideais utópicos, necessidades extravagantes, e de espaço, espaço, espaço. E com o passar dos anos, a cidade foi ficando pequena, a mente das pessoas ao meu lado foram ficando pequena, os livros foram ficando pequenos. E eu comecei a buscar o ar em drogas, garrafa de vodka, amores heterossexuais. E as minhas crise se tornaram patológicas e eu cansei de dançar. Minha avó não dançava, agora eu compreendo, lhe faltava o ar. Eu não danço, agora compreendo, me falta o ar.
 
 
 
 

sábado, 6 de outubro de 2012

Aos amigos que sumiram...

Sumi, também. Dei um tempo. Perdi as esperanças na espera e resolvi me jogar em caminhos que não sei onde vão dar. Conheci tanta gente, tanta. E algumas delas me olham com olhos de expectativa. Muitas delas, agora, não me deixam encostar a cabeça no sofá e esperar doer. Larguei os amores, a prostituição, as drogas, permaneço apenas com o vício de me repetir. Fui atrás de ser mais humano, de ouvir os anseios, de projetar. Corri atrás de outros sonhos e me aluguei para sonhar tal qual a personagem do Gabriel García Marques. E deixei a saudade num canto, junto ao mofo, as roupas sujas e aquele livro do Tolstói que ainda não li. E fui - coração em desalinho - seguindo. Fui deixando  os amores sem resposta, o corpo sem cuidado, catei os restos e trancafiei as feras no armário! Acho que cresci! Dou respostas, pego responsabilidades nas costas e às vezes ainda me pego repetindo assim: "Pode deixar, tudo vai dar certo e a gente vai ser feliz". Minto. A lacuna permanece, mas eu apenas não deixo ela ocupar todo o espaço. Ao lado, deixo o sorriso do menino que se espanta com as possibilidades, o alívio de quem desabafa com uma cadeira, e as lágrimas de quem sente uma saudade da gota serena, e me faz lembra de vocês. E vou vendo que em outros corpos, em outros planos eu me realizo também. Vou vendo que nem sempre é possível estar perto e a gente tem que se contentar com o que tem. Respiro melhor, e se a escrita está fraca é porque as manhãs estão ricas.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Sim, eu receberia!

Sim, eu receberia as piores notícias, as piores dos seus lindos lábios. Porque nenhuma notícia deve se deveras triste na sua presença. Porque nenhuma tragédia é suficientemente desesperadora que me faça parar de te olhar. Independente da notícia, eu queria apenas ter meus olhos dentro dos seus como naquele instante em que te perguntei se você tinha entre tantos outros filmes e entre tantas outras promoções uma cópia qualquer a um preço qualquer de um filme maravilhoso que fala sobre paixões arrebatadoras como  a que senti desde o momento em que desci do carro e sentei na mesa. Antes de sentar eu notei que você me olhou, eu notei que você me olhou dentro dos meus olhos inquietos, e eu notei na quarta promoção  que não era apenas promoções, e eu quis verdadeiramente comprar alguma coisa, algum filme que ao menos te dissesse algo, mas eu não soube. Eu não soube fazer nada, além de pensar que era mais uma dessas paixões idiotas que me acometem durante o mês de agosto, mais uma dessas paixões platônicas - apenas coisas da minha imaginação. Eu perdi a esperança e agora só sobra um punhado amargo de falta de fé. Eu sei que não vai surgir, eu entendo que depois de um tempo a prosa não flui e basta apenas envelhecer, basta apenas esperar os dias se sucederem numa sucessão sem sucesso. E engolir para além da garganta a vontade de dizer que seria tentador te convidar para sair, mas eu confesso que eu não consigo fazer nenhuma conversa ser interessante, nada se prolonga para o segundo tempo ao meu lado...
- Sim é um filme da Camila Pitanga.
Eu podia ter dito algo mais interessante, algo óbvio, assim como você disse "Lindo título", eu podia ter dito algo, poderia ter elogiado seus olhos. A gente sabe quando entra no corpo do outro, a gente sabe quando as portas estão abertas, quando os olhos permitem a visita. Eu te olhei lá dentro e foi lindo, eu te visitei e quis fazer parte dessa história de vender cópias ilegais de filmes idiotas. Tão idiotas como esse meu pensamento de te querer uma vez, um dia qualquer, numa noite melhor que essa em que apenas te criei para mim, para minha necessidade de amar alguém.

sábado, 26 de maio de 2012



Um cacete para Eros!
Algo que lhe doa do ânus até a garganta. Uma coisa grande, incômoda, que não se vá mesmo com doses e doses de vodka barata. Uma punição para suas atuais trapalhadas. Algo que lhe mostre que tem feito burrada, que tem transformado o amor em caos. Porque eu sei, caro Eros por onde tem andado. Sei que um belo dia cheirastes até o pó enquanto dançava Man Down. Foi nesta noite que perdeste os pares das cartas. Ninguém percebeu que trocou todas elas milimetricamente marcadas, que numa confusão absurda jogou todas dentro de um saco e se foi esbravejando:
 - Cacete, mereço um tapa!
E a partir de então, tem tentado inultimente reaver os pares. Tentando transformar um ser em amado.   Que magia tem usado? Como tem ludibriado os otários? Será que só eu percebi que tudo tem desandado. Que tem unido pares desiguais. Que os amantes não tem se amado. Como sua flecha não tem entortado se a esmo atira na contramão e atinge qualquer transeunte desavisado? Como tem unido mãos de pessoas que nem se respeitam, como tem feito para que haja química em corpos que não se completam? Como tem feito para que assumam amores que ferem, desrespeitam, excluem passado, memórias, projetos e coisas mais. Porque permite que se prostituam para o amado? Por um trago, um carro, um pedaço de sanduba qualquer. Como tem unido tanta gente com a velha desculpa de que "opostos se atraem". Vai à merda com essa física barata. À merda com todas essas ideologias de que quem é contra as suas flechadas é apenas um invejoso mal-amado. Vai à merda seu anjo irresponsável. Mete essa sua maldita flecha no seu rabo! Porque eu espero avidamente ter sido esquecido naquele chão imundo, onde enlouquecida, com certeza, não deve ter olhado para todos os lados.

domingo, 13 de maio de 2012

Manifesto ao teatro IV

Essa semana entrei em profunda crise. Tatuagem feita na canela. Indicativo de que como as formigas, estamos apenas subindo. Nada no grupo internamente me irrita, mas algo externamente urra. Com um final de semana sem público em nossos dois espetáculos em cartaz  e prestes a comemorar dois anos na próxima sexta um desânimo toma conta do meu corpo e não me deixa produzir. Mesmo com uma puta oficineira com abraço de quebrar qualquer tristeza, com pedido de texto sob encomenda, com trabalhos paralelos, eu piro. E não se trata mais de não me identificar no movimento, nem de querer desistir. Trata-se de querer sobreviver frente à um turbilhão de incoerências. Trata-se de querer vender a boa mercadoria, de assumir a identidade, de querer encontrar aquele livro que te indicaram, de colocar os planos no papel. De tomar posse da minha autoria - e dos meus. Sim, é uma necessidade louca de convencer aquelas pessoas a irem conhecer teu trabalho. Uma vontade louca de não ser apenas trabalho de formiguinha. Trata-se de exigir que projetos coletivos não se arruínem por caprichos individuais de outros. De querer um espaço digno para ensaio, condições dignas para apresentação. Trata-se de não ter que tolerar um, insitir com outro, convencer aquele acolá. De não ouvir as mesmas idiotices daqueles que julgam conhecer mais e melhor apenas porque nasceram antes de você. De perguntar a todos que se dizem "artistas" porque eles não frequentam os teatros. De entender porque fazemos festival e para quem? E para quem estamos em cartaz? Uma necessidades muito grande de que as pessoas entendam que não me interessa montar espetáculos similares ao Zorra Total, pois prefiro a ausência de pessoas à esvazia-lás com babaquices. De querer formar grupos de discussão e até mesmo terapêuticos. Uma necessidade de que entendam que a forma com que me organizo não deve ser das melhores, mas que por ora serve a um ideal. Que entendam isso: há um ideal. De não pensar em sair dessa cidade para buscar conhecimento, mas de transformar essa cidade com conhecimentos. De não ter medo de choques elétricos, de atrizes vaidosas, de críticas daqueles que não produzem, de incomodar os reis. De acreditar que não há retaliações, conchavos, puxadas de tapete e de saco,  vingança, corrupções, cachês atrasados, discussões inutéis, repetições de ideias, homenagens vãs... E acreditar que há sim, culpa.

- eu assumo a minha.

domingo, 15 de abril de 2012



sempre uma dose a mais”




Eu sabia que deveria ter entornado o copo com o líquido azul na tua roupa. Foi o liquido, algo fluido como o sentimento que de repente se apossou de nós. Foi aquela mistura indecorosa de vodka, gelo, e pó azul que me tornou outro. O maldito líquido me fez agir daquela forma sôfrega, um tanto quanto prostituída. Se houvesse em ti derramado o conteúdo do copo não haveria aqui essas marcas que até hoje eu me pego contemplando. Se em ti o líquido azul houvesse derramado, talvez eu desejasse uma outra bebida e você, insensível, quereria uma outra roupa. Mas ao contrário, eu segurei firme o copo nas mãos, como quem prevê o desastre, como quem prefere sofrer a posteriori. Os meus dedos permaneceram firmes, embora meu corpo estivesse cambaleando, embora a minha consciência me avisasse da cilada que teus braços representavam, eu permaneci. Talvez eu culpe o líquido pela pressa com que as coisas aconteceram, com a facilidade com que me permiti. Talvez eu nunca mais repita a besteira de beber tanto líquido azul. Talvez nunca mais eu vá a um lugar feio e sujo e faça aquelas coisas. Que eu nunca mais invente promessas só minhas, que eu nunca mais espere. E que nunca mais eu pense em abandonar tudo, as pessoas, os projetos. Que nunca mais eu interprete educação com sentimento-surgindo. Porque diabo aquele líquido etimologicamente lascivo não me fez ver a verdade? Por que ele não me mostrou que era apenas prazer? Se tudo era líquido em quê quis eu me apoiar? Até hoje eu não entendo esse meu comportamento de criança que nunca leu o Zygmunt Bauman. Até hoje eu não entendo porque eu não consigo esquecer. É por isso que eu deveria ter entornado o líquido em você. É por isso que eu deveria ter entornado o líquido azul ao invés de beber

quinta-feira, 29 de março de 2012

"Deixe seu relógio que eu quero saber

Quanto tempo falta para lhe esquecer

Quanto vale um homem para amar você

[...]

Nossa relação acaba-se assim

Como um caramelo que chegou ao fim

Na boca vermelha de uma dama louca"


Eu não lhe contei, mas quando aparecestes na porta da minha casa, eu estava completamente nu, aos farrapos. A casa em si não conservava nenhum resquício de um lar. Haviam depredado todas as entradas, roubado os móveis, e por pura piedade me conservaram imóvel numa poltrona velha, da qual durante anos não saí. Eu não lhe contei, mas havia feridas enormes embaixo de minha pele e cicatrizes profundas nos meus olhos. Coisas que não lhe contei quando surgiu. Deixei que entrasse, que olhasse toda a sujeira, e se divertisse com a excentricidade do lugar. Não podia imaginar que avidamente percorresse todos os cantos, inclusive aquele vão onde guardava as lembranças dos raros dias felizes de outrora. Não podia supor que atingiria meu corpo, meus vícios, descobriria prazeres que eu nem sabia existir. Então pensei em decorar a fachada, reformar os movéis, comprar cortinas novas, assoalho, um lustre, flores para a mesa de jantar que nunca tive. Pensei até em organizar uma festa, sair aos domingos, criar um animal qualquer de estimação. Pensei em conhecer o Chile, adotar uns filhos, ser mais gentil. Comprei até uns livros do Neruda, ouvi uma músicas de Mercedes Sosa e enquanto fantasiava o que prepararia para o jantar, percebi que você só havia passado algumas horas, me tocado por uns minutos e que havia partido sem nem mesmo eu conseguir me despedir.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Quando eu decidi abrir a casa...



Durante um tempo deixei todas as portas da minha casa escancaradas. Na incerteza que o mudo convite não bastasse descerrei as janelas, tirei até mesmo algumas telhas do lugar. Queria que você entrasse em mim novamente. Queria te sentir mais uma vez. Queria movimento, passos, que quebrasse todos os jarros, pratos, copos, eltrodomésticos, aquele altar com sua foto, algumas velas e o bonequinho espetado. Sentei na mesma poltrona que me abandonei quando você foi embora, e ávido trancafiei todas as portas, todas as janelas, tapei as fechaduras e pintei de preto as paredes. Como arrependida puta desfiz tudo isso e te esperei sentada. Mas você não veio, nem mesmo para me ofender, me xingar, maldizer o nosso tempo. Você não veio e não tive forças para trancafiar tudo novamente. E outras pessoas entraram. Com as botas imundas de lama encharcaram aquele tapete onde nos amamos sôfregos. Seminus, treparam na mesa onde jantávamos noites a fio e eu não me cansava de olhar a tua ruga que batizara com meu nome. Outros ainda, subiram no nosso quarto e se masturbaram naquele lençol de família que você me cobria nos dias de chuva, insônia, doença e me contava a história daquela velha sozinha que hoje me parece tão eu. Ainda teve aqueles que se disseram amigos e me roubaram os escritos, o albúm de fotografias, o meu talento para atuar. Um sacana urinou nas minhas pernas e cuspiu na minha cara. Os mais afortunados levaram os movéis, roubaram os quadros, arrancaram as portas, janelas, as telhas, madeiras, qualquer coisa de valor. Apenas eu fiquei no mesmo lugar. Te esperando.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

- é porque não acredito em amor pela metade, daqueles que não incluem o pacote de erros, a tendência a ignorar as monstruosidades, o cuidado eterno com o outro. Porque não acredito nesse amor que não respeita as pessoas que são importantes para mim e me expõe ao ridículo de chorar copiosamente nos braços alheios. Quem ama prefere, respeita, eterniza. Quem ama não abandona ao acaso, deixa sem roupas na avenida. O que me conforta é ter dito desde o começo que a decepção viria, que eu não sou essa pessoa legal, que eu machuco, firo, falo merda. Que eu crio dramas, cenas, e tenho um costume de inventar situações. Eu sei que deveria ter dito “sou um monstro, mantenha distância!”, mas acontece que acho tão raro alguém gostar e se importar comigo que talvez eu não quisesse ter sido tão rude. Talvez eu tenha mesmo algum problema genético-psicológico-social, mas afinal de contas, quem não os tem? Eu sei que está todo mundo guardando seus sentimentos e doenças, e que eu deveria fazer o mesmo. mas eu não consigo suportar os meus sozinho. Eu preciso deixar claro que há sim problemas, que há sim uma necessidade louca de que as coisas não se misturem, que eu gosto tanto ao ponto de ser insuportavelmente infeliz. Custava não mexer nas feridas? Custava ter se policiado mais, não ter se contaminado com os meus desejos. Aprendi com tudo isso, que sim “Tudo não pode ser dito” * .Um outro amor me disse isso e eu não acreditei, eu não notei que era como sempre uma forma de me preservar Eu sei que o culpado sou eu, todo mundo disse que eu causei a merda, que eu fiz o que ninguém faz. E hoje eu entendo O Nelson Rodrigues “Toda unanimidade é burra”. È burra porque a unanimidade é uma mentira. Sempre vai existir alguém que pensa diferente, alguém que faz diferente, alguém que questiona, alguém que quebra os copos e diz o que não deve. Toda ação mesmo que singela e inocente, repercute dolorosamente em alguém. Quem ama de verdade evita essa repercussão. Mas eu aceito sim essa minha alma miserável e finjo que tudo já passou dos limites, eu reconheço esse monstro no qual me transformo quase todos os dias e assumo a necessidade de aprisioná-lo e te peço humildemente, sinceramente, desculpas.

* Vitória Eugênia (poeta, escritora, amiga)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O inimigo

Ele também quer o vazio.
E o pinta com cores melhores que eu:
Cáqui, ocre, musgo.
Ele está sempre ao meu lado,
- punhal afilado na cintura –
repetindo:
- Venha ver verdes vales, vulgaridades
velhas, velhos valores.
Ele detém a poesia nas mãos:
Estrofes com versos alexandrinos,
Títulos macabros,
Assonâncias intermináveis.
Ele decidiu escrever.
- e obteve êxito –
Eu decidi viver
- e não o obtive –

domingo, 25 de dezembro de 2011

Flor e abismo?



Eu trago comigo a doença. Adentro nos corredores, invado as recepções, e algo em mim incomoda. Eu sinto. Talvez o tumor esteja na minha alma, sambando em todas as vibrações, sendo o centro. Talvez a alma esteja mesmo apodrecendo. Algo em mim apodrece, te digo. Digo, disse que tenho medo da morte, mas vejo ela todos os dias rindo ao meu lado e me oferecendo aquele avental branco como as paredes dessa casa que me fazem chorar. Eu te disse. E você fez disso uma piada. "As pessoas não morrem quando querem morrer, querido!". Me disse. E aquele sorriso amarelo e os seus olhos gastos me deixaram repentinamente sem ar. Foi quando descobri que já estou morto, assim como o personagem do Caio. "flor e abismo"? Me pergunto, mas só vejo o abismo, o abismo: agulhas, seringas, soros, enfermeiras, vômitos! É você que vai trazer a flor? E quando? Cara, venha logo me salvar, traga nos bolsos um cigarro, pode ser fino, não ligo. Tomamos uma dose em qualquer lugar, mas vamos sentar no meio fio por quinze minutos e me deixa falar sem pausa. Me deixa dizer como é essa dor? Me deixa chorar e rir e lamentar e fingir que vou me recuperar no dia seguinte. Me deixa ao menos ter a ilusão que depois que você for embora eu vou poder descansar tranquilamente e não mais ligarei o computador, nem ouvirei Adele, nem lerei nada sobre as outras aventuras conjugais. E não serei feliz, mas finalmente calmo. Eu vou desligar as luzes, fechar a casa, colocar uma garrafa de vodka debaixo do braço e o livro do Caio debaixo do outro, vou pegar qualquer avenida e vou parar na porta da sua casa, vou bater e esperar que você me atenda e me oferça maracujás, faça um drink e me ponha no seu braço e me embale. Até que eu durma e esqueça que estou sufocando, sufocando.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Territórios



É. Nos disseram que temos certos espaços. Lugares restritos na cidade onde podemos dar as mãos, trocar carinhos e beijos. Também nos disseram que qualquer forma de amor nossa é indecente, indecorosa e fere as crianças e os velhos. É , eu sei que não podemos andar nessa rua vazia de mãos dadas sem medo dos xingamentos, dos protestos, das pedradas. Sei que por mais bonito que pareça, ou mais singelo que o afago seja, sempre será repudiado, ou pelas mãos da polícia, ou pela sua mão que é tão igual a minha. Por isso nos deram certos bares, algumas pousadas, os banheiros públicos. Por isso há uma bandeira, a luta, todo esse farfalhar de pequenas conquistas e distância enorme dos outros que são iguais, normais, e que não ofendem. É. Eu ando aprendendo direitinho. Tenho contido os olhares, subornado os amigos, e continuo amando às escondidas. E quando digo que quero dar as mãos, é apenas um gesto sem nenhum outro interesse além de dar as mãos mesmo, entende?. Dá para ser mais simples, sermos mais simples. Eu quero te ver em qualquer lugar agora, te abraçar com calma, beijar o canto dos teus olhos e sair por aí, mesmo que te esqueça amanhã, mesmo que seja apenas uma vontadezinha vazia, mesmo que eu não sinta nada (porque não sinto). Só queria que as coisas fossem menos complicadas, que me deixassem expressar sem medo. Que você me deixasse expressar, saca? Porque aos poucos essas coisas vão apodrecendo e eu vou apodrecendo junto. Porque aos poucos a cidade vai ficando cada vez mais restrita e a diferença se acentua. Porque aos poucos eu vou cansando, esqueço teu número, deleto as redes sociais e dispenso essa coisa simples que queria te dar.

domingo, 23 de outubro de 2011



Há um misto de paz e agonia por todos os lados. Eu não te sinto mais doer aqui dentro, mas ao mesmo tempo ninguém mais me doi. Deve ser por isso que a escrita anda faltando, talvez por isso que não leio mais os mesmo poemas, não recito os mesmos versos. As gavetas estão todas cerradas com os projetos, acho que foi lá que encerrei a ideia de continuar te amando. Acho que foi num cômodo vazio que te tranquei. E junto esqueci essa coisa meio músculo, meio entranha que vivia pulsando em mim. E agora ando por aí sem pulsação. caminhando pelas relações mais abjetas, sendo um numa soma de casos. O telefone finalmente toca, o encontro se marca, mas eu não sinto vontade alguma de ir. Eu acordo tarde, invento desculpas, deixo propositalmente o celular desligado. Escuto todos os dias a mesma música, todos os dias eu choro quando a Adele diz "don´t you remember the reason you love me". Mas de fato nem eu mesmo me lembro. Acabamos envelhecendo, acabamos apodrecendo, acabamos duplamente sozinhos. Eu vejos as cicatrizes e todas os traços novos que surgem na nossa pele. Cada marca, cada litro novo de vodka ingerido, cada carteira de cigarro amassada num cinzeiro entupido. E torço para que os caminhos se desencontrem, torço para que a distância perdure. Que essa falta de notícia, essa falta de palavras permaneçam. Tenho contido os dedos, tenho freado a língua. Estou até andando em outras rodas, me drogando com gente nova. Ando até mais paciente, até mais solidário. Escuto conversas chatas de amores novos, bebo com pseudo-intelectuais e fingo não me doer a ofensa. Parei de pulsar entende? Sou contido. Como algo que foi acorrentado e impedido de sair. Sou finalmete sociável. E as vezes me pergunto que merda é essa. E nessas horas, tenho recaída, fricciono uma mão na outra, grito o teu nome na escuridão e procuro ávido as chaves que te tirem daquela gaveta

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Porque você me parece um conto de Caio. Desgrenhado, vivo. Absorto em suas viagens, sozinho na sua música. Porque hoje eu dividi o cigarro, mas queria apenas te dizer:
- Já leu Retratos?

Queria apenas te dizer que me imagino ali, que te imagino ali. Mas você nunca oferece o serviço, e eu nunca tenho corgem de te querer mais perto. Apesar de sempre procurar nos bolsos a moeda. Essa coisa de você ser assim distante perto, excitantemente passageiro. Essa coisa de eu ser assim totalmente lerdo. Será que vai acabar nos levando a algum lugar? Ou apenas vou ficar ao teu lado esperando a próxima palavra, a próxima bibliografia. É, eu sei que ando te duplicando. Deve ser desejo, vontade, tédio. Mas não, eu queria mesmo desvendar esse caminho, eu gosto dessa coisa de enigmas, essa coisa que cheira a mofo, livros velhos e muita leitura. Eu gosto muito de você. E seria tão mais fácil se você facilitasse o nosso caminho. Seria mais fácil que você não frustasse essa expectativa. E fosse logo ao retrato. Mesmo que no fim da semana eu constatasse que ando envelhecendo. Eu já me sinto velho, cara! Mas você bem que poderia salvar pelo menos uma semana dessa vida. Você poderia colorir todas as manhãs? Posso realmente te esperar na janela? Eu levo os cigarros, o café, e todos os Bob's que peferir. Mas se você sumir, ao menos deixa um aviso na portaria, escrito bem assim:

- Não, não li esse conto!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Coisas inconscientemente ditas.

Eu tentei trocar as fichas, apostar em outras viagens. Tentei te excluir desse jogo e acabei ganhando alguns pontos. Hoje não me doi mais as mesmas palavras, hoje tuas atitudes não tem peso. Tenho me relacionado melhor com o mundo, tenho entendido a natureza. Estou até mesmo vencendo alguns medos, traçando alguns planos que você não incentivava, me reconhecendo no movimento. E essa distância me faz te conhecer melhor, bicho verme! Te vejo como eu, egoísta, mimado, te vejo humano, fraco. E gosto de te atestar imperfeito. Você está morrendo, eu sinto. Não conto mais os dias de ausência, não conto mais tuas grosserias. Estão florescendo outros amores com a primavera. Eu troquei o disco, mudei de foco, então pode continuar inconscientemente me sabotando, eu não ligo! Eu não queria que fosse assim, mas já que é, deixa ser. Sem respeito, sem cautela, sem lembranças, sem cuidado. Deixa acontecer, com o esquecimento eu supero. Já que com as dores eu não aprendi, com a ausência quem sabe, não dê certo?

domingo, 21 de agosto de 2011



"When will see you again?"


Quando fecho os olhos e Adele canta, nós somos felizes. Quando fecho os olhos, sinto tua mão ultrapassar meu ventre, sou capaz de reconhecer seus pelos no meu ante-braço. Nós descansamos nesta cama deste quarto vazio e você é ameno, doce, realizado. E esu sou enfim protegido, finalmente satisfeito. De olhos fechados eu te vejo melhor e você me enxerga! Não há competição, nem ciúmes, os outros não existem. O único ruído é da garganta da Adele rasgando nossa pele, veias, músculos. Nós nos ferimos também com as unhas e não doi, amor. Nós nos amamos e é bom, amor. E nós somos inantingíveis. Eu te toco e sinto o planeta. Você me toca e eu sinto o verso!
Porque essa certeza que me acompanha não te segue?

- Que seríamos felizes. E plenos. E doces. E simples. Eu te ofereço o caminho e você desvia a rota. Fecho os olhos para esquecer que você não vem. Para sentir tuas mãos penetrando nas minhas, segurando meus dedos. Para sentir teus lábios na minha nuca, eu fecho os olhos. Para sentir teu sexo no meu, eu fecho os olhos. Para te sentir, eu fecho os olhos.

Então, porque você não abre os seus?










quinta-feira, 28 de julho de 2011

"Tô tirando férias, dando um tempo disso. chega de amar, chega de me doar, Chega de me doer" Caio F

O teu espaço está vazio agora. Tenho o nada e ele não me completa. Apesar de sentir os móveis no lugar, as roupas ordenadas, apesar do chão estar limpo. Eu me sinto incompleto. Esperando um outro objeto de idealização. Não há mais versos, não há mais prosa, as páginas estão todas em branco, a agenda está engavetada. E você está por aí. Eu estou por cá. Cada um para o seu lado, vegetando. Porque eu sei que você também não é completo. E sei que é esse medo de ser um que te assusta e te afasta. Agora quero me conter, me poupar, cuidar desse rosto, desse corpo, desse meu ser Quasímodo que você propagou. Não te quero bem, não te quero mal, não te quero perto, nem longe, apenas não conjugamos. Tô saindo de férias de mim, te vomitando no asfalto para que não sobre mais nada, nem um resto, nenhuma víscera. Estou me curando, mais uma dia sem, só mais um dia... (repito, antes de dormir).

domingo, 10 de julho de 2011

Reclamações da escrita...

Se eu disser que já escrevi o suficiente por hoje estou mentindo. A escrita permanece aqui engasgada. A palavra entalada na garganta, o signo entre os dedos. Quero dizer, quero dizer. Mas só há procuras, só há vazios. Espaços em branco. Não-lugares que você não preenche mais. Que eu não preencho. Você também é literariedade, um signo. Você, idealização da minha escrita pobre, das minhas rimas miseráveis. Fazendo da vida privada uma cópia, uma mimésis mal interpretada, um plágio de mim. A escrita ocupando os sentimentos, a escrita como um fantasma a rondar minha casa, a me torturar. Ela a te engolir em necessidades loucas, a te devorar pela necessidade de te ter como referência. A escrita é pedra, abismo, arma de fogo prestes a vomitar. É cratera, poço onde me afundo, me afundo, vou bem fundo e volto, tal qual a Ângela Rôrô. E quando volto, piro, dou respostas ácidas, termino relacionamentos e retorno a você, musa da minha escrita, persongem da minha farsa. Você que não é você, entende? É apenas um personagem parecido, distante das tuas indecisões, dos teus vazios, dos teus podres pensamentos, dessa necessidade sua de ser o centro. A escrita, é ela quem te pede de volta, ela quem te espera, e te quer mais solícito, menos indiferente. E é ela, a escrita, não eu. É ela quem implora, se ajoelha, reclama. Eu, sou só seu corpo. Submisso à escrita... E a você?