segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Ainda a gosto


Eu olho assim as coisas que eram minhas e não são mais. Olho e penso que poderia ser bom - no sentido puro dessa palavra. Podia desapegar, não sentir esse sentimentozinho ruim. Desprender-se. Deixar as amarras se soltarem por si mesmas. Passar a vez, como se passa a bola,o anel. Mas insisto em fingir que tenho punhos, gosto de segurar as coisas entredentes, mesmo quando não há mais o que segurar e só rosno. Crio a fantasia que tenho essa força, que sou mesmo essa pessoa forte, enfrentativa ,que pinto para mim mesmo. E quando há luta ainda, as coisas se tornam dolorosas, insuportáveis. E as feridas irrompem na alma como escavações no asfalto. Chega um estágio que as feridantigas gangrenam, entende? Mesmo assim há pelo que lutar, pelo que querer. Quando não há mais nada, sobra apenas a lembrança que poderia ser esquecida, a lembrança de uma perda, de uma falta, de uma ausência. Sobra apenas a culpa por não ser bom

domingo, 22 de agosto de 2010

Retorno à UFS


Se a madrugada inspira, o dia apavora. Pela manhã os corpos parecem estar prontos para o grande abatimento humano, onde todos são transportados em pequenos cubículos pela estrada afora. Assim, há as vestes matutinas, o sorriso acolhedor que intima, a pressão pela resposta certa, o futuro certo, a vida certa.
Nessa rotina do dia-a-dia as palavras perdem a conotação, a poesia se expira, o vocabulário se extingue. E a linguagem se torna cotidiana. É a poesia monossílábica que vigora, a de palavras rápidas, mínimas, coisas que flutuam sempre na superfície. Superfície onde todos se afogam.
Numa dessas manhãs de agosto, o cara lacaniano me falou da ausência que assola a todos. Da frequente fala que nos permite continuar vivos. Vestido de preto e branco, celular pendurado na cintura e relógio de fivela no pulso, me contou a história da velhinha que quando descobriu ter tudo, morreu. E então, percebi que até essa falta imensa que sinto não me torna protagonista de nada. A lacuna é coletiva, descobri.
Nesse instante, percebi que até a minha agonia, o meu vazio existencial que romanceava, até ele era comum. Comum como todos os desejos, expectativas, planos que poderia ter tido. Foi aí que passei a não crer nem mesmo no vazio que cultuava.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Casamento...


algumas vezes não é preciso casar para se ter uma relação de cônjuge. Há casos em que o tempo cumpre o papel de juiz, padre ou qualquer um que finja unir duas pessoas . Quando não há aquele que oficializa, a relação se dá espontânea. O compromisso e suas conotações de amarra, prisão, entrelaçameto ficam no intertexto. Os envolvidos tratam de dar esse significado aos poucos.
Mas da mesma forma, a separação (divóricio) fica implicito. nenhum dos dois pronunciam o fim , porque simplesmente não há com o que acabar. Em alguns casos a distância se estende à amplitude do corpo, à amplitude do físico. As ligações se interrompem, cessam os recados, os encontros desaparecem.
Já em outros casos, o processo se dá mais doloroso, o 'casal' inconsciente ou conscientemente se distanciam mas os corpos se esforçam por manterem unidos. Cumpre-se a agenda, cumprem-se os encontros e tudo tem o caráter de obrigação.
E talvez o que sobre entre tanto desencontro, uma floriznha amaragugrada a escrever poemas brilhantes

sexta-feira, 25 de junho de 2010


Entre tuas pernas
Ideias minhas
Ventania
Que não cessa

Entre pernas tuas
Idiossincrassias
Orgias
Que não prestam

Pernas tuas entre
As minhas
Partes íntimas
Que se quedam

sábado, 19 de junho de 2010

deprimindo o deprimente

é o que todos gritam por aí. que gritam nos meus ouvidos com vozes simples, comuns. Como conselhos de amigos. Deprimindo, deprimente. Ás vezes chego a pensar que seja um pedido. Deve existir alguém para se deprime por toda a gente. alguém que lembre que não chegaremos a lugar nenhum com cigarros com gosto de charutos cubanos, e iogurtes recheados de vodka barata. è preciso nomear o chato, o cara mais antipático da festa, que passa horas e horas refletindo sobre as ações dos outros nas festas. Essa pessoa tem que ser tão comum, e simples para ver que não passamos de toscas representações da juventude 00 que vivemos. serei eu este cara, todas as noites

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Mais uma carta... Decepções teatrais


Lembro agora da ânsia que senti para te conhecer a alguns anos. De como te segui para ver teu rosto. Da pressa que tinha em materializar a pessoa que um antigo amigo meu tanto amara. É como se não te conhecesse ainda. O Brecht sempre esteve certo "Não éramos amigos, apenas compartilhamos o mesmo espaço". E eu tentava acreditar que o espaço que dividiamos era outro - abstrato - mas outro. Percebo que o único espaço que dividimos realmente foi físico, de parede caiadas, ideologias desconexas e repleto de goteiras. É triste saber que dividimos apenas escravidão, esperanças ultrajadas, sonhos corrompidos. É triste mesmo notar que não construímos nada para chamar de nosso. Para eu chamar de meu. Para você chamar de teu. Uma forma de assumirmos nosso egoísmo. Mas hoje, quando você descia a escada rolante enquanto eu subia, no momento em que ficamos lado a lado, senti uma distância quilometrica. Talvez foi essa distância que me permitiu ficar em silêncio. Ou quem sabe foi o receio de novamente não ser correspondido. Mas sabia que tinha me visto, e vi até mesmo o que passou pela tua cabeça na hora. Mas o que me impressionou não foi a frase que imaginou. E sim esse vazio repleto de rancores. Essa distência! O mais irônico foi que tive a mesma experiência. estava eu sentado numa poltrona de uma Secretária qualquer, quando surge o nosso Carrasco. Ele me cumprimentou cordialmente e sentou-se no mesmo corredor, mas no último banco e do lado oposto. E o longo corredor tornou-se ainda mais extenso. E me doeu tanto, assim como me doeu hoje. E parece que sempre vai doer. Não que eu ame vocÊs. Não. Apenas acho que somos parecidos demais, talentosos demais, egoistas demais, orgulhosos demais, inseguros demais, convictos demais para continuarmos juntos. acho que o nosso grande erro foi não entender que nunca fomos amigos, nem nunca seremos, pois nos amamos em demasia para isso. É esse o nosso engano, foi esse o engano dele. E afundamos no mesmo erro. E não foi só isso que repetimos. também estamos inativos, preguiçosos, tristes. também estamos criando esperanças em outras cabeças. também estamos deixando de enriquecer. Parasitamos a nossa arte por medo da potencialidade do outro. E a única coisa que queria era uma resposta:Onde vocês estão escorrendo essa potência? a minha, está aqui. Nessas frases, escorrendo como num ralo.

terça-feira, 4 de maio de 2010

você pra mim
è como coisa rara
Música sacra
Tom Jobim