quarta-feira, 5 de maio de 2010

Mais uma carta... Decepções teatrais


Lembro agora da ânsia que senti para te conhecer a alguns anos. De como te segui para ver teu rosto. Da pressa que tinha em materializar a pessoa que um antigo amigo meu tanto amara. É como se não te conhecesse ainda. O Brecht sempre esteve certo "Não éramos amigos, apenas compartilhamos o mesmo espaço". E eu tentava acreditar que o espaço que dividiamos era outro - abstrato - mas outro. Percebo que o único espaço que dividimos realmente foi físico, de parede caiadas, ideologias desconexas e repleto de goteiras. É triste saber que dividimos apenas escravidão, esperanças ultrajadas, sonhos corrompidos. É triste mesmo notar que não construímos nada para chamar de nosso. Para eu chamar de meu. Para você chamar de teu. Uma forma de assumirmos nosso egoísmo. Mas hoje, quando você descia a escada rolante enquanto eu subia, no momento em que ficamos lado a lado, senti uma distância quilometrica. Talvez foi essa distância que me permitiu ficar em silêncio. Ou quem sabe foi o receio de novamente não ser correspondido. Mas sabia que tinha me visto, e vi até mesmo o que passou pela tua cabeça na hora. Mas o que me impressionou não foi a frase que imaginou. E sim esse vazio repleto de rancores. Essa distência! O mais irônico foi que tive a mesma experiência. estava eu sentado numa poltrona de uma Secretária qualquer, quando surge o nosso Carrasco. Ele me cumprimentou cordialmente e sentou-se no mesmo corredor, mas no último banco e do lado oposto. E o longo corredor tornou-se ainda mais extenso. E me doeu tanto, assim como me doeu hoje. E parece que sempre vai doer. Não que eu ame vocÊs. Não. Apenas acho que somos parecidos demais, talentosos demais, egoistas demais, orgulhosos demais, inseguros demais, convictos demais para continuarmos juntos. acho que o nosso grande erro foi não entender que nunca fomos amigos, nem nunca seremos, pois nos amamos em demasia para isso. É esse o nosso engano, foi esse o engano dele. E afundamos no mesmo erro. E não foi só isso que repetimos. também estamos inativos, preguiçosos, tristes. também estamos criando esperanças em outras cabeças. também estamos deixando de enriquecer. Parasitamos a nossa arte por medo da potencialidade do outro. E a única coisa que queria era uma resposta:Onde vocês estão escorrendo essa potência? a minha, está aqui. Nessas frases, escorrendo como num ralo.

3 comentários:

junior disse...

Nojo...

Fláviabin disse...

O teatro sempre foi terra de ninguém. Bem sei.

Manuh Andrade disse...

escorrendo como num ralo...
e sensação de nada a se fazer simplesmente continuar deixar escorrendo pelo ralo.