terça-feira, 3 de março de 2009


Tirésias não é meu, isso é fato. Não é simplesmente por não ter sido eu o autor de tamanho feito; falo da atuação em uma montagem em que às vezes parece que caí simplesmente de pára-quedas. Quando o vi pela primeira vez em cena, me pareceu impossível representar aquela mixórdia de crenças e desgraças que me apresentava, definitivamente estava fora das minhas possibilidades, do meu corpo que não sabia – e até hoje vacila - ao se expressar. Com um tempo, destinos se entrecruzaram, a proposta caiu em minhas mãos. Atenção nenhuma dispensei, aos poucos aquilo se tornou apenas uma faísca para conquistar um espaço que também deveria ser meu, espaço que necessitava –necessito, reconheço – Quando dei por mim, aquilo tornara um desafio. Ah, se meu irmão soubesse que pela primeira vez na vida algo me desafiou, e me entreguei a todos os sofrimentos morais e psíquicos que meus nervos não de aços poderiam suportar. Engoli uma vitória em meio a lágrimas que admirei e me ofuscaram. Uma vitória com o sabor amargo de coito interrompido. Depois uma substituição com cara de atestado de incompetência. Um longo caminho que me trouxe de volta a você Tirésias, com seu cheiro que impregna meus cabelos durante a semana inteira, com meu provar-se incompetente. Hoje, pesa em meu pé uma inflamação de um calo feito por ti, e na boca falta um pedaço de um dente que não fere minha vaidade, mas anuncia a perda irremediável e dolorosa de outra perda no mesmo céu. Tuas marcas hoje me preocupam! Tuas dores, latentes em suas trevas me dói agora, e não é apenas uma dor mental, caótica, agora é física! Em um corpo que lembra a minha velha e malfadada infância, que tolamente se protegeu de um mero vilão, que hoje torce para que da boca, dentes e dentes perca. Precisamos, velho Tirésias, resolver as pendências, consertar as mágoas e entrarmos num acordo. Talvez também não me queira, mas me disponho a sê-lo. Se isso não te basta, apenas me poupa! Para amargar um fracasso, vodka barata é insuficiente, mas as dores físicas em meu corpo não cessam, em minha boca me diminui muito. Não dispara as tuas flechas contra o meu coração...

p.s: Licença aos artistas maravilhosos da foto! E a fotógrafa Moema Cos

3 comentários:

blábláblá disse...

Vc ñ sabe o talento que tem...

PaBlO disse...

seu texto é bilateralmente doloroso, rapaz... caramba! vc só ñ pode negar uma coisa: foi um aprendizado que não deixará vc ser o mesmo em relação a algus assuntos. engraçado, o último texto do meu blog dialoga com o seu: escrevemos ambos sobre figuras áticas! mto bom o texto, mto boa a oportunidade que vc teve para evoluir! flwsss!!!

Manuh Andrade disse...

eu vejo em você tanto potencial...
seja um Tireseas, seja Cleante seja Beto...eu vejo um Euller potente ainda que com calos abertos e dentes quebrados!